Reflexões sobre o uso do big data em modelos preditivos de vigilância epidemiológica no Brasil

Autores

DOI:

https://doi.org/10.17566/ciads.v9i3.702

Palavras-chave:

Bioética, Big data, Vigilância em saúde pública, Ética

Resumo

Objetivo: discutir as implicações bioéticas a partir do anúncio da Saúde Digital por parte da Organização Mundial da Saúde e do uso do big data na produção de sistemas preditivos de vigilância em saúde no Brasil. Metodologia: realizou-se revisão narrativa a partir da busca de artigos nas plataformas Scielo, Bireme, Jstor e na página da Organização Mundial da Saúde e do Ministério da Saúde do Brasil, com os descritores big data, bioética e ética, de maio a julho de 2020. Resultados: foram evidenciados limites no uso do big data como ferramenta de vigilância epidemiológica preditiva, notadamente com o seu uso durante a pandemia de Covid-19, apesar de justificável a partir da teoria da bioética da proteção e da ética da saúde pública. Os maiores limites observados foram ausência de legislação de proteção de dados adequada e viés dos dados obtidos. Conclusão: para análise dos impactos bioéticos do uso do big data na medicina do futuro é imprescindível aprofundar a discussão sobre os possíveis impactos que o uso dessas tecnologias pode gerar na vida em sociedade, com ênfase no desenvolvimento do capitalismo de vigilância, na interferência na vida social e no acirramento das desigualdades regionais.

 

Biografia do Autor

Rui Massato Harayama, Universidade Federal do Oeste do Pará

Mestre em Antropologia Social; professor, Instituto de Saúde Coletiva, Universidade Federal do Oeste do Pará, Santarém, Pará, Brasil. https://orcid.org/0000-0002-7231-3589. E-mail: rui.harayama@gmail.com

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Publicado

2020-09-29

Edição

Seção

ARTIGOS